17 julho 2016

Resenha: O Pêndulo de Foucault - Umberto Eco

Casaubon, Belbo e Diotallevi são redatores da editora Garamond, na Milão do início da década de 1980. Cansados da leitura e releitura de incontáveis manuscritos de ciências ocultas, eles acabam encontrando os indícios de um complô que teria surgido em 1312, e atravessado, encoberto, toda a história do planeta até o fim do século XX. Em 'O pêndulo de Foucault', Umberto Eco aborda questões contemporâneas como a emergência do irracionalismo high-tech, as síndromes do final do milênio, o mundo dos signos e os segredos da História. Skoob / 



Autor: Umberto Eco
Editora: Record
Páginas: 624
Nota: 5/5 FAVORITO

Acho que essa é a primeira vez que eu dou nota máxima para um livro aqui no blog e para o meu primeiro Umberto Eco da vida acho que estou bem. Foi a leitura mais desafiadora que fiz esse ano, mas antes de começar a falar da minha experiência ao ler vou contar um pouco da história desse autor magnífico, que nos deixou orfãos em fevereiro deste ano.

Umberto Eco (1932-2016) foi um escritor, professor e filósofo italiano nasceu em Alessandria, Piemonte, Itália, começou a carreira como filósofo e seus primeiros trabalhos foram dedicados ao estudo da estética medieval, especialmente sobre os textos de São Tomás de Aquino.

Foi considerado um dos expoentes da nova narrativa italiana, iniciada por Ítalo Calvino (1923-1985). Exerceu grande influência sobre os meios intelectuais ao estudar os fenômenos de comunicação ligados à cultura de massas, como histórias em quadrinhos, telenovelas e cartazes publicitários.

Ele escrevia livros desde a década de 60, mas foi no fim dos anos 70 que se voltou para a literatura popular com a obra O Super-Homem de Massa (1978), depois ele publicou o título que as pessoas mais conhecem O Nome da Rosa (1980), seguido por O Pêndulo de Foucault (1988) e suas duas últimas obras foram O Cemitério de Praga (2010) e Número Zero (2015).

Além de ser conhecido por sua criação literária, o autor deixou sua marca no mundo literário por suas declarações polêmicas e ele usava isso tanto nos livros quanto em entrevistas que dava, vejam alguns exemplos:

"Os livros não são feitos para alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa." - O Nome da Rosa
"As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis" - ao jornal La Stampa.

Quero muito ler outras obras dele, mas vamos começar a falar do livro de hoje antes que esse post vire um Tratado. Umberto o classificou como "um romance das ideias, sobre a relação entre razão e irracionalismo" e preciso concordar que essa dubiedade permeia a história o tempo todo.

O primeiro indício desse fato é que o livro é dividido em 10 partes e cada uma representa um sefira da árvore da vida da Cabala. Quando eu vi os nomes fiquei super intrigada e fui impelida a pesquisar quando Casaubon, um dos personagens principais, falou pela primeira vez dos sefirot da Cabala. Nunca pesquisei nada sobre o assunto, mas achei muito interessante a forma como eles veem a árvore da vida e principalmente o significado de cada fruto dela.

Não vou entrar nos detalhes aqui para não ficar longo, mas vale super a pena pesquisar até para entender melhor o motivo pelo qual ele escolheu esses nomes para cada parte. Faz muito sentido para evolução da história e como Casaubon vai evoluindo para entender o recado deixado por Belbo.

A história conta como Belbo, Casaubon e Diotalevi, três funcionários de uma editora italiana descobrem de forma casual um plano de dominação do mundo criado pelos templários e rosacrucianos. Aparentemente é uma trama batida, mas a forma como o autor escreve te deixa de cabelo em pé, primeiro porque você sabe que os três são amigos, mas apenas um deles está no início do livro. 

Aos poucos você vai descobrindo que ele sabe muito pouco sobre o que aconteceu ao membro do trio que ele espera encontrar em frente ao Pêndulo de Foucault, que fica em um museu de Paris. E a parte mais curiosa é que ao longo da história você se pergunta se a aquilo que foi contado aconteceu de fato. Acho que justamente por deixar esse tom ambíguo é um livro desafiador, porque você precisa prestar atenção para juntar os elementos que o autor te dá para definir se tudo aconteceu de fato. Confesso que vou precisar ler mais algumas vezes para embasar melhor meus argumentos, mas como eu adoro revisitar livros que eu gosto muito tenho certeza que isso não será um problema. Tá aí Dom Casmurro que não me deixa mentir.

O que preciso deixar claro é que essa é uma leitura densa, a forma como Umberto Eco conta a história é bastante descritiva e detalhada. Só para vocês terem noção ele gasta umas duas páginas explicando como Casaubon se sentia diante do Pêndulo, tudo isso para introduzir a explicação do que é o Pêndulo e informar ao leitor que ele é o único ponto fixo do mundo. No início eu fiquei meio confusa com isso, mas depois eu achei genial porque ele te faz entrar na história de cabeça para te prender ao que acontece com o trio e como eles descobriram "O Plano".

Eu já li muita coisa na vida, mas ainda estou engatinhando rumo a leituras mais elaboradas e confesso que tive que ler o livro mais devagar para conseguir entender a narrativa do autor. Isso não tirou nem um pouco o meu prazer pela leitura, tanto que dei a nota máxima para ele e já estou pensando que na primeira oportunidade que tiver lerei novamente para pegar mais detalhes que com certeza passaram despercebidos.

Se você já lê a bastante tempo, tem uma certa bagagem de clássicos e leituras mais elaboradas e está sentindo que é hora de se desafiar um pouco mais, esse livro é para você, mas leia com paciência e de mente aberta. Se você já leu grandes nomes como Gabo, Llosa e Saramago e não teve a oportunidade de pegar um Umberto Eco com certeza a hora é essa e antes de pegar o maior título dele talvez seja bom começar por um título menos visado para se acostumar a narrativa dele. Acho que vai ser difícil alguém se decepcionar com essa leitura tendo bagagem para acompanhar a leitura.

Me contem se toparam o desafio!

Quote:
"Acredito que aquilo em que nos transformamos depende do que nossos pais nos ensinam em pequenos momentos, quando não estão tentando nos ensinar. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria."

Ps.: Também escrevo resenhas e matérias em outro blog literário, o Ponto para Ler, se quiser conhecer é só clicar AQUI.






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