Resenha Dupla: O Conto da Aia - Margaret Atwood



Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.


Autora: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Páginas: 548
Nota: 4.5/5

Oi pessoal!

Nós, Ana e Brenda, fizemos a leitura conjunta do livro O Conto da Aia da Margaret Atwood e viemos compartilhar nossas impressões com vocês. Eu, Ana, li o livro sem ver nada da série de TV e a Brenda leu já sabendo tudo o que aconteceria então temos duas experiências de leitura bem diferentes para apresentar, esperamos que gostem!! 

Estamos na década de 80, período de efervescência das lutas pelos direitos das mulheres e dos negros no mundo. Então imagine que tudo vira de ponta a cabeça e de repente a sociedade regride a costumes antigos, falso moralistas e puramente religiosos. Bem-vindo a República de Gilead, que antes foi chamada de Estados Unidos da América.

Não existem mais jornais, revistas, livros, filmes, universidades... Também não existem advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os que são considerados criminosos por agir diferente do que manda esse novo regime teocrático e totalitário são fuzilados ou enforcados e pendurados no muro para que todos vejam seus corpos apodrecendo para servir de exemplo e de alerta aos demais.

"Isso pode não parecer costumeiro para vocês agora, mas depois de algum tempo será. Irá se tornar costumeiro."

As mulheres não tem mais direito a nada. Elas não podem ler, trabalhar, ter contas bancárias, vestir o que quiserem, dizer o que pensam, casar ou não com quem desejar... Agora elas são Marthas, Esposas, Tias ou Aias. As Marthas são responsáveis pelos afazeres domésticos das casas dos comandantes. As Tias cuidam da doutrinação e disciplina (lavagem cerebral) das futuras aias. As Aias são algumas das poucas mulheres férteis restantes que foram arrancadas de suas famílias para servirem como úteros que andam, sendo obrigadas a dar filhos aos generais que não conseguiram reproduzir com suas esposas, gerando essas crianças em um ritual doentio, humilhante e opressor. 

"Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes."

Nós vamos conhecer esse novo mundo pelos olhos da aia Offred. Talvez você ache esse nome estranho e de fato é, pois nem mesmo é um nome. Nem a isso as aias tem mais direito. Dependendo da casa onde elas estiverem servindo serão chamadas de forma diferente de acordo com o nome do comandante. Of (=de) + nome do comandante (no caso da nossa protagonista, Fred). Offred tem 33 anos e foi arrancada de sua família. Sua filha foi entregue para adoção e seu marido não se sabe se ainda está vivo. É em meio a lembranças e sonhos que vamos conhecendo o seu passado e percebendo como ela foi aos poucos perdendo a sua liberdade e como foi parar na situação em que está agora, assim como a sua nova realidade se mistura a memória da mulher que ela foi um dia.

"Meu nome não é Offred, tenho outro nome que ninguém usa porque é proibido. Digo a mim mesma que que isso não tem importância, seu nome é como o número de seu telefone, útil apenas para os outros; mas o que digo a mim mesma está errado, tem importância sim. Mantenho o conhecimento deste nome como algo escondido, algum tesouro que voltarei para escavar e buscar, algum dia."

É difícil falar sobre esse livro sem contar muita coisa. É uma história tão absurda e tão possível que assusta. Somos jogados nessa nova realidade sem entender o que aconteceu com o mundo e aos poucos a protagonista vai nos levando para a sua rotina e nos contando com as coisas são agora. Para uma esposa ter uma aia em casa é humilhante, um sinal de que não conseguiu cumprir com seu dever de ser mãe. As Marthas invejam das aias o privilégio de ao menos poderem sair de casa. As aias são responsáveis por fazer compras no mercado e esse é o único passeio que elas tem permissão para fazer deixando as casas onde servem. Elas saem sempre em dupla, mas não é para fazerem companhia umas paras as outras, pelo contrário, é para se vigiarem. Vivem na angústia de nem sequer poder ter uma relação humana com ninguém, de não saber em quem confiar porque existem "Olhos" escondidos por toda parte.

"Nesta casa todas nós invejamos umas as outras por alguma coisa."

Esse livro faz pensar sobre o poder da informação. Sabemos que quem detém informação tem poder, repare onde você trabalha ou até mesmo na sua escola. Quem está nos cargos mais altos tem informações que nem sempre são compartilhadas com todos porque nem tudo deve ser de conhecimento geral na maioria dos casos. Passamos por essa filtragem de informações diariamente nos jornais televisionados e para quem não tem costume de cavar informações de fontes diversas na internet, o volume de informação recebido pela TV é bem baixo. E nesse livro não é diferente, Offred não sabe como a situação chegou ao ponto atual depois do atentado ao presidente e também não sabe qual é a real situação agora que já está há alguns anos nessa nova. E é justamente isso que mantém a República de Gilead, o controle total do que é passado aos seus cidadãos e o combate violento a qualquer tipo de oposição.

Esse livro também faz pensar sobre a troca de uma ditadura por outra, que é uma coisa que eu, Ana, penso bastante quando defendo meus pontos de vista feministas. Havia uma cruzada a favor do aborto e dos direitos das mulheres e nessa nova ditadura, os homens apresentam o respeito a mulher como o centro de sua razão de existir, mas na verdade eles apenas maquiaram a falta de respeito através da opressão e da falta de informação. Essa deturpação que nos é apresentada aos poucos ao longo do livro me faz pensar em como é importante saber defender o seu ponto de vista e os seus direitos prestando bastante atenção a forma, pois a partir do momento que você defende que deve subjugar outro para deixar de ser subjugado algo está muito errado no discurso. Precisamos defender o nosso lado porque temos valor como qualquer outro que existe e não para oprimir quem nos oprimiu. 

Sem assistir nada da série eu fiquei bastante curiosa para entender o retrato completo do que aconteceu, mas os fragmentos apresentados por Offred só te dão indícios suficientes para entender o básico de como tudo virou a República de Gilead e o pouco que ela entende sobre a nova organização, porque, obviamente, ela não sabe todos os detalhes da transição e nem a situação real dos dias de hoje. Essa ausência de detalhamento não desmotivou minha leitura, pois os fragmentos que ela apresentava aos poucos não são em ordem cronológica e cada pedacinho faz você querer saber mais para ver onde vai encaixar a próxima peça do quebra cabeças, até que de repente tudo fica claro como água. 

O livro termina com um final aberto, sinto que é nosso dever dizer isso. Você não vai se deparar com uma grande heroína que vai lutar para derrubar o sistema e nem que entende cada detalhe do que acontece então prepare-se para lidar com uma mulher de carne e osso que sofre todos os dias pelas escolhas que fez e por suas perdas, mas que se preocupa muito mais com sobreviver um dia após o outro do que com grandes feitos heroicos. As pessoas que perdeu estão em seu pensamento quase que diariamente, mas o impulso de sobreviver e o medo do que pode acontecer com ela caso ela pergunte algo a pessoa errada são bem maiores que a necessidade de saber que fim levaram os outros. 

Apesar de ser um livro pequeno, é uma leitura densa, reflexiva e nada agradável. Talvez você devore em um ou dois dias pela curiosidade de saber para aonde a história vai nos levar, mas talvez você demore mais tempo por precisar parar para respirar e digerir o que leu. É angustiante, terrível e assustador, mas uma leitura muito necessária. Para todo mundo. 

Ah! Não deixem de ler as notas históricas! Elas ajudam a encaixar as peças que faltam para você entender porque a história é contada da maneira que se apresenta. Eu e Brenda concordamos que elas nos ajudaram muito, então leiam!

O livro teve uma adaptação para o cinema em 1990 intitulado "A Decadência de uma Espécie" e em 2017 ganhou uma nova, desta vez como série de TV para a plataforma de streaming Hulu, concorrente da Netflix, que ainda não veio para Brasil. Eu, Brenda, ainda não vi o filme, mas assisti a série antes mesmo de saber que existia livro e afirmo que é tão maravilhosa quanto a obra de origem. Atualmente está na segunda temporada e já tem a terceira confirmada. No livro existe um salto no tempo e é exatamente esse o material principal para dar continuidade a série de TV e ir além do livro explorando outros personagens que não a Offred. A primeira temporada venceu oito Emmys, três Critics' Choice Awards e dois Globos de Ouro. Este ano, finalmente, com atraso de quase um ano em relação à estreia nos Estados Unidos, o Paramount Channel começou a exibir no Brasil e espero que a segunda temporada venha mais rápido. Uma vez que você adentra este mundo não consegue mais parar de pensar nele.


Quotes:
"O que ele está fodendo é a parte inferior de meu corpo. Não digo fazendo amor, porque não é o que ele está fazendo. Copular também seria inadequado porque teria como pressuposto duas pessoas e apenas uma está envolvida. Tampouco estupro descreve o ato: nada está acontecendo aqui que eu não tenha concordado formalmente em fazer. Não havia muita escolha, mas havia alguma, e foi isso que eu escolhi."
"É por falta de amor que morremos. Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar."
"Não deixe que os bastardos esmaguem você (Nolite te bastardes carborundorum)"
"As outras Colônias, contudo, são piores, há os depósitos de lixo tóxico e a radiação que vaza. Nessas, eles calculam que você tenha três anos no máximo, antes que a sua pele se despregue e saia como luvas de borracha."

2 comentários:

  1. eu li o livro e vi a serie e olha, que historia!!!! apesar de ter sido escrita nos anos 80 nao podia ser mais atual, vale muito a indicação!

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    1. Que bom que você concorda, Lívia!
      É uma história que dá muito o que pensar, minha nossa!

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