Dica de Leitura: Vox - ​Christina Dalcher




Título Original: Vox
ISBN: 9788580418897
Editora: Arqueiro 
Ano: 2018
Páginas: 320
Nota: 5/5 FAVORITO
Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo...
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
...mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz. Skoob | Comprar: Amazon

"Deus é a cabeça do homem e o homem é a cabeça da mulher" e é a partir disso que o novo governo dos Estados Unidos instaura o manifesto dos puros, onde as mulheres foram aos poucos perdendo todos os seus direitos e limitadas a falar apenas cem palavras por dia, sendo castigadas com choques elétricos caso ultrapassem esse número e que tem sua potência aumentada para cada palavra extra dita.

Em "Vox" vamos acompanhar a vida da neurolinguista Jean que tem lá seus quarenta anos, casada e com quatro filhos, dentre eles uma menininha de apenas cinco anos que mesmo com sua pouca idade foi silenciada junto com a mãe. No momento em que essa história (pesadelo) começa já tem um ano desde que o novo presidente assumiu o governo que transformou a vida de todas as mulheres americanas. 

"Aceno para Sonia enquanto o ônibus se afasta do meio-fio. Hoje ela vai estar numa sala com 25 outras meninas do primeiro ano. Vai ouvir histórias, treinar contas, ajudar os outros alunos na cozinha a cortar biscoitos, misturar massa e assar tortas. É isso que a escola é agora, e o que vai ser por um bom tempo. Talvez para sempre."

Além de na maior parte do tempo não poder falar, as mulheres não podem mais trabalhar, ter conta em banco, usar meios de comunicação sem autorização do marido (telefone, internet) e nem mesmo receber correspondências. Linguagem de sinais não é permitido, escrever não é encorajado, câmeras estão espalhadas por toda parte, sair do país está completamente fora de questão, sexo fora do casamento é crime e existe "cura gay". Parece não existir a mínima perspectiva de mudança. Jean se sente cada vez mais sufocada na prisão que se tornou a sua vida, por começar a odiar os homens dentro da sua casa, ver o seu filho mais velho adotando todo esse comportamento absurdo, tomando como certo e não ter palavras suficientes para nem consolar a própria filha.

"Eu não os odeio. Digo a mim mesma que não os odeio.
Mas as vezes odeio."

Nada foi transformado de uma hora para outra, aos poucos "os puros" foram entrando na vida de cada cidadão, tirando os direitos das mulheres, influenciando seus filhos nas escolas até que fosse tarde demais para fazer algo para impedir. Jean foi avisada várias vezes por sua colega de quarto feminista, Jackie, na universidade que a encorajava e insistia para lutar pelos seus direitos, ficar atenta aos governantes...mas Jean tinha outras coisas mais importantes para fazer, matéria para estudar, achava tudo um exagero... e se manteve em sua bolha por bastante tempo até ser arrancada dela para esse pesadelo.

"Uma coisa que aprendi com Jackie: você não pode protestar contra o que não vê se aproximar." 

Durante a leitura acompanhamos as memórias de Jean em sua época de Universidade e vamos percebendo o quanto sua colega acertou sobre o futuro. Aos poucos ela vai alimentando em si uma revolta que pode finalmente lhe dar coragem para fazer algo por si mesma, pela sua filha e todas as outras mulheres silenciadas.


Tenho tanta coisa para falar desse livro, mas quero que cada leitora e leitor tenham a mesma experiência que eu tive em uma manhã de domingo quando peguei esse livro para folhear despretensiosamente e só consegui soltar quando terminei de ler. As primeiras cem páginas do livro foram extremamente angustiantes para mim e lá pelo meio quando surge um brilho de esperança a ansiedade já me dominava pela perspectiva de alguma mudança o que tornou a outra metade do livro eletrizante.

Jean não é uma heroína ou personagem perfeita. Ela é humana, cheia de defeitos e não concordo com todas as atitudes dela, mas entendi e cada decisão que ela tomou foi relevante para o desenvolvimento da trama. Por muitas vezes consegui me ver na personagem e comecei a repensar minhas próprias atitudes e imaginar o que eu faria no lugar da Jean.

"Como mulheres, devemos manter o silêncio e obedecer. Se precisarmos saber de algo, perguntaremos aos nossos maridos na intimidade do lar, porque é vergonhoso uma mulher questionar a liderança do homem, ordenada por Deus."

"Vox" tem sido muito comparado com "O conto da aia" e sim, os dois falam da mesma temática, mas as autoras desenvolvem suas histórias de maneira diferente. "Vox" se aproxima muito mais do que está acontecendo no mundo hoje, tanto que até assusta. É uma leitura muito mais ágil, embora muitos acontecimentos sejam difíceis de digerir, e os capítulos são curtinhos. Quem gostou de "O conto da aia" vai gostar de "Vox" também e vice-versa. A escrita da Christina Dalcher conseguiu me envolver muito e fiquei completamente presa na trama. Livro super recomendado e necessário na atualidade. 

Quotes:
"Minha culpa começou na primeira vez em que não votei."
"Eles não vão nos matar pelo mesmo motivo que não autorizam abortos. Nós nos transformamos em males necessários, objetos para ser fodidos e não ouvidos."
"As câmeras estão em toda parte. Nos supermercados e nas escolas, nos salões de cabeleireiro e nos restaurantes, esperando para captar qualquer gesto que possa ser considerado uma tentativa de comunicação não-verbal, até em sua forma mais rudimentar."
"As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo."
"A mulher não deve ir às urnas, mas tem uma esfera própria, de incrível responsabilidade e importância. Ela é a guardiã do lar, nomeada por Deus...Ela deve ter total consciência de que sua posição de esposa e mãe, e de anjo do lar, é a tarefa mais santa, mais responsável e régia designada para os mortais; e descartar qualquer ambição de algo mais elevado, já que não existe nada tão elevado para os mortais.

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